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Palocci e a entrevista fajuta



Palocci e a entrevista fajuta

Como é de costume num país com arremedo de imprensa livre, o Ministro Antônio Palocci escolheu apenas um único veículo televisivo para uma entrevista exclusiva oferecendo dados sobre a mágica da multiplicação de pães estilo submundo petista. Entrou em cena a poderosa Rede Globo num palco de enganações de causar arrepio. Para não comprometer os jornalistas sérios da emissora, escolheram um inexpressivo repórter (o coitado não tem culpa, ressalta-se) que de tão envergonhado permaneceu a maior parte do tempo escondido. Fez bem. As perguntas foram superficiais, de uma primariedade tão absurda, que só enganou os que ainda acreditam que São Jorge luta contra um dragão no lado escuro da lua.

O ministro foi evasivo, utilizou-se de frases prontas que não significam coisa alguma e deixou as minguadas perguntas importantes sem respostas. As explicações sobre o faturamento da empresa chegam a ser hilariantes. Profissionais qualificados que atuam no mercado afirmam que a tese e estapafúrdia até os ossos. É a primeira vez na história que uma assessoria obtém faturamento milionário porque fechou as portas. A justificativa não resiste ao crivo da lógica matemática elementar. A tese dele é simples. O gênio atuou muito tempo sem receber, oferecendo um trabalho espetaculoso, ao ingressar às atividades e, só neste momento, o feliz cliente abriu os cofres pagando tudo de uma só vez. Dá para acreditar? Para quem se chama Alice e vive no mundo da fantasia, até que dá.

A burlesca entrevista – jogando na latrina regras de jornalismo ético cabíveis no complexo caso – se vomitou nos telespectadores com uma sofrível técnica de edição. Ficou muito claro que foi uma espécie de gravação entre amigos. Para quem possui um mínimo de QI, torna-se evidente que o Ministro usou a mídia nacional – intriga-me entender porquê a emissora aceitou tal parceria – para realizar um teste para ver se o estilo vai colar na possível sabatina com os parlamentares. Pode até ser. Vai ser um belo encontro entre telhados de todos os matizes. Jogar pedras só com muito zelo e pontaria confortável.

Voltando a partes, digamos assim envergonhadas na pseudocoleta de dados, quando o repórter apertou (na verdade uma espécie de beliscão nas bochechas) indagando sobre as empresas envolvidas nas transações enriquecedoras. Ele não pôde dizer. Coitadas das indústrias e firmas contratantes, elas seriam investigadas. E daí? O negócio foi legítimo? Não se trata de aglomerados da iniciativa privada que não possuem o rabo preso com ninguém? Balela. Aposto minha carreira de 42 anos na imprensa que nenhuma delas resistiria a uma averiguação infantil.

O receio do ministro que acelera no atoleiro e justamente este. A verdade arrastaria tubarões graúdos capazes de romper a rede que contêm vorazes piranhas. Espécies carnívoras perigosas que se nutrem do sangue do contribuinte brasileiro. Segundo informações dos calabouços palacianos, a alta cúpula do governo – Lula na fileira principal – acompanhou o particular programa roendo as unhas uns dos outros. Ao afundar, Palocci pode dar na telha de ser um daqueles náufragos que não largam o pescoço de quem está perto. O abraço de afogado é mais temido no quadrilátero do planalto do que fogo na vegetação seca em pleno mês de julho.

Segundo consta, pesquisas sigilosas foram encomendadas para verificar o termômetro da população. Se o povão sentir firmeza na fala mansa do ministro é possível encarar a fúria da oposição. Se ele não convenceu, as barbas entram em molho especial e lança-se o plano B. E que estratégia é essa? Ninguém sabe ao certo. Línguas ferinas juram que foi batizada de operação “Deus nos acuda”. O codinome não foi estabelecido pela Polícia Federal. É da lavra de petistas que já perderam partes dos cabelos. Poucos duvidam que os fatos, revelados nas minúcias, não justifiquem ações que envolvam a estrutura policial. Mas como estamos no Brasil, uma renúncia honrosa e uns rodízios de pizza deixam tudo como dantes no quartel dos que mamam em tetas inesgotáveis.

Rosenwal Ferreira é Jornalista e Publicitário

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